25 ANOS DEPOIS
Crônica de César Ladeira
Esta música vibrante (Nota 1), ecoava nos céus brasileiros como um toque de clarim. 1932 marcou uma etapa de civismo impressionante do povo paulista, de armas na mão, exigindo apenas o respeito alheio. Nove de julho ficará para a posteridade como a firmação máscula da gente do planalto, lutando somente por um ideal, por aquilo que não tínhamos àquele tempo: uma Constituição. São Paulo foi acusado de tudo: de traição, de vilania, de torpeza. Chegaram até a inventar que o movimento era separatista. Mas o tempo, soberano em suas determinações se escoou, mostrando de que lado estavam a perfídia e a calúnia, com quem estavam a razão e a serenidade. Dias e noites gloriosas de vigília e sofrimento, de angústia e expectativa, viveu a gente paulista de 32, nas trincheiras, nos altos postos, nos lares, nas consciências. Numa unanimidade estupenda, ombreavam-se todos os mistérios das classes mais diferentes. Operário e industrial faziam parte do mesmo batalhão de voluntários. Costureirinhas e senhoras de alta linhagem costuravam lado a lado os mesmos agasalhos destinados aos que lutavam nos vários fronts. Os bens materiais foram esquecidos num milagre de desprendimento e as filas estendiam-se, imensas, com criaturas se despojando de seu ouro, de suas jóias, para receber em troca um singelo aro de metal, definindo uma atitude que perdura até hoje como uma das páginas mais belas da cruzada paulista: Dei Ouro Para o Bem de São Paulo. Para o bem de São Paulo que quer dizer: para o bem do Brasil. Vencidos pelas armas, a vitória nos sorriu depois, logo depois, com a realização dos nossos objetivos. Afinal, nossa terra conseguiu sua lei magna pela qual nos batíamos. Não fora em vão o sacrifício de tantos, que regaram com seu sangue generoso e bom a constituição brasileira afinal promulgada. Esta música vibrante ecoava nos céus brasileiros como um toque de clarim. O rádio engatinhando naquele tempo, foi a sentinela avançada no movimento redentor. Conclamou, incentivou, entusiasmou e foi o bálsamo dos que duvidavam, esclarecendo, e foi o remédio dos que sofriam, informando, e foi o arauto dos que estavam distantes e conosco solidários em espírito, mas desarmados, divulgando; unindo os mesmos ideais; sonhando os mesmos sonhos. Vinte e cinco anos depois, São Paulo desmente todas as calunias que soaram. Cada vez mais brasileiro este São Paulo orgulhoso do seu passado de lutas, tranqüilo dos dias de hoje com a certeza segura no amanhã de glórias. Este São Paulo das bandeiras heróicas, das chaminés anunciando o trabalho, dos movimentos patrióticos redentores. Este São Paulo bom irmão, amigo dos menos protegidos; São Paulo verde dos cafezais alastrados; São Paulo cinzento dos arranha-céus atrevidos; São Paulo branco dos algodoais sem fim; São Paulo de mãos sujas de operários construindo o progresso; São Paulo de mãos “manicuradas” e “quatrocentonas”; São Paulo metrópole, São Paulo usina, São Paulo coração. Este São Paulo de 1957, vinte e cinco anos depois, é o mesmo São Paulo de 1932: heróico e generoso, desprendido e bom; São Paulo de luta e de trabalho, de coração e de coragem; São Paulo amigo; São Paulo brasileiro.
Nota 1: A música vibrante seria o dobrado “Paris- Belfort” de Joshep Farigoul, marcha francesa da época da 1ª. Guerra Mundial que foi adotada praticamente como o hino da Revolução de 1932